Gestante de alto risco de Duas Estradas denuncia sucessão de falhas no atendimento após perder bebê e passar dias com feto retido no útero
Mulher afirma que buscou ajuda na rede municipal de saúde, enfrentou dificuldades no Hospital Regional de Guarabira, pediu transporte à Prefeitura e só conseguiu chegar ao Hospital Cândida Vargas após auxílio de terceiros

Uma gestação cercada por expectativas terminou em dor, sofrimento e uma sequência de pedidos de socorro. A moradora de Duas Estradas, no brejo paraibano, Zuleide Viegas, afirma ter enfrentado dificuldades para conseguir atendimento médico e transporte após descobrir que o bebê que esperava havia morrido ainda no útero.
Em entrevistas, áudios e mensagens obtidos pela reportagem, a gestante relata que, mesmo informando desde o início que sua gravidez era de alto risco, passou por sucessivas tentativas de atendimento, enfrentou demora para conseguir assistência especializada e permaneceu por vários dias com o feto retido até conseguir chegar ao Hospital Cândida Vargas, em João Pessoa, onde foi submetida ao procedimento de retirada do feto.
Gravidez de alto risco e pedidos por acompanhamento especializado
Segundo Zuleide, o pré-natal começou na Unidade Básica de Saúde de Duas Estradas.
Ela afirma que informou ao profissional possuir histórico de perdas gestacionais e que aquela era uma gravidez de alto risco. Conforme seu relato, realizou todos os exames solicitados e pediu que seu caso recebesse acompanhamento diferenciado.
Posteriormente, foi encaminhada para atendimento médico. No entanto, a gestante relata que saiu da consulta sem receber os esclarecimentos que esperava e voltou a procurar a Unidade de Saúde, manifestando preocupação com a evolução da gravidez.
Quadro clínico piorou e exame apontou descolamento gestacional
Com o passar das semanas, Zuleide afirma que seu estado de saúde começou a se agravar.
Segundo ela, perdeu aproximadamente dez quilos, passou a sentir fraqueza constante, deixou de se alimentar normalmente e realizou uma ultrassonografia que identificou um descolamento gestacional.
Mesmo levando o exame até a Unidade de Saúde, a paciente afirma que voltou a enfrentar dificuldades para conseguir atendimento médico. Conforme seu relato, explicou que estava debilitada e apresentou o resultado da ultrassonografia, mas recebeu orientação para aguardar e procurar um hospital caso apresentasse sangramento.
A confirmação da morte fetal
Dias depois, uma nova ultrassonografia trouxe a notícia mais dolorosa.
Segundo a gestante, o exame confirmou que o bebê já não apresentava batimentos cardíacos.
Ela relata que, imediatamente após receber o diagnóstico, procurou novamente a Unidade de Saúde em busca de apoio para seguir o tratamento. Conforme seu relato, foi orientada a procurar o Hospital Regional de Guarabira.
Foi nesse momento que, segundo a paciente, começou uma nova corrida contra o tempo.
Hospital Regional também é alvo de questionamentos
Zuleide afirma que esteve por duas vezes no Hospital Regional de Guarabira, mas relata que não conseguiu realizar o procedimento necessário.
Segundo seu relato, havia apenas um médico atendendo uma grande quantidade de gestantes, sendo priorizadas as pacientes em trabalho de parto, enquanto mulheres com óbito fetal aguardavam atendimento.
Ela afirma ainda que, em uma das ocasiões, o médico que realizava os atendimentos passou mal e precisou deixar o plantão.
A gestante relata que um dos médicos responsáveis por uma ultrassonografia orientou que ela buscasse atendimento em João Pessoa, por entender que o caso exigia assistência em uma unidade de maior complexidade. Segundo ela, o profissional alertou para a gravidade do quadro e recomendou que procurasse atendimento o quanto antes.
Sem transporte, começou outra luta
A orientação para procurar João Pessoa trouxe um novo obstáculo.
Sem condições financeiras para custear a viagem, Zuleide afirma que solicitou transporte à Prefeitura de Duas Estradas.
Em áudio enviado à gestante, o secretário municipal de Transporte explicou que os veículos disponíveis funcionavam mediante agendamento prévio e que todas as viagens já estavam programadas.
Em resposta, a paciente afirmou que não havia feito agendamento porque enfrentava uma situação de urgência médica. Segundo ela, já havia passado pelo Hospital Regional, permanecia com o feto retido no útero e precisava chegar imediatamente a um hospital na capital.
Pedidos de socorro chegaram à administração municipal
Sem conseguir resolver a situação, Zuleide afirma que decidiu recorrer diretamente à prefeita Myllena Nayara Leandro Nunes.
Em um áudio encaminhado à gestora, ela relata todo o histórico da gestação, informa que o bebê já estava sem vida, descreve as dificuldades enfrentadas na rede municipal e no Hospital Regional de Guarabira e pede ajuda para conseguir transporte até João Pessoa.
Na mensagem, a gestante afirma que uma amiga havia conseguido uma vaga em um hospital da capital, mas que ela não possuía recursos para custear a viagem. Também relata o temor de permanecer por vários dias com o feto retido no útero e sofrer complicações.

Além da prefeita, Zuleide afirma ter enviado mensagem ao Controlador Geral e Chefe de Gabinete do Município, Ramesses, reforçando o pedido de ajuda e relatando novamente a gravidade da situação.

Segundo a gestante, nenhuma das mensagens recebeu resposta.
Ajuda veio de representantes políticos
Sem conseguir o transporte solicitado ao município, Zuleide afirma que buscou ajuda junto ao ex-vereador Júnior Oscar e ao vereador Heráclito Pinto.
Segundo ela, foi graças ao apoio prestado pelos dois que conseguiu chegar ao Hospital Cândida Vargas, em João Pessoa.
Na unidade hospitalar, a paciente passou pelo procedimento de retirada do feto e recebeu atendimento especializado.
Ainda conforme seu relato, uma médica que participou do atendimento teria afirmado que, se ela tivesse recebido assistência em tempo oportuno, o desfecho poderia ter sido diferente. (Essa declaração é relatada pela paciente e não foi confirmada de forma independente pela reportagem).
Relatos levantam questionamentos sobre o atendimento
Os relatos reunidos pela reportagem levantam questionamentos sobre o acompanhamento de gestantes de alto risco, o acesso ao atendimento especializado, o fluxo de encaminhamento para unidades de referência e a oferta de transporte para pacientes em situações urgentes.
A reportagem procurará oficialmente a Prefeitura de Duas Estradas, a Secretaria Municipal de Saúde, a direção do Hospital Regional de Guarabira, a Secretaria de Estado da Saúde e os profissionais mencionados para que se manifestem sobre os fatos narrados pela gestante.
Até o momento, as alegações referentes a possíveis falhas no atendimento e na assistência são baseadas nos relatos da paciente, nos áudios e nas mensagens apresentados à reportagem. O espaço permanece aberto para manifestação de todos os envolvidos.