
Duas Estradas, PB — A gestão da prefeita Myllena Nayara (PSD), da cidade de Duas Estradas, agreste paraibano, enfrenta uma série de questionamentos envolvendo nepotismo e, mais recentemente, denúncias e pedidos de esclarecimento sobre gastos com diárias e suspeitas de favorecimento político dentro da atual gestão. A reportagem reuniu decisões judiciais, procedimentos do Ministério Público da Paraíba (MPPB) e páginas de transparência para explicar o que há de oficial até agora — e o que ainda precisa ser esclarecido.
Quando assumiu o comando da Prefeitura de Duas Estradas em 2025, a prefeita Myllena nomeou para cargos estratégicos sua prima, Joyce Renally Félix Nunes de Figueiredo, como Chefe de Gabinete, e Ramessés Henrique Roberto de Figueiredo, marido de Joyce, como Controlador-Geral do Município, ambos citados em denúncias de usar a atual gestora como “laranja” para manter o controle político da administração municipal. As nomeações também envolvem a própria mãe da prefeita, Ozineide Leandro Nunes, e sua tia, Marileide Nunes da Costa, além de outros parentes próximos, configurando um círculo familiar em cargos públicos.
As recentes denúncias sobre gastos excessivos com diárias foram formalmente encaminhadas pelo vereador Heráclito Pinto (União Brasil) ao Tribunal de Contas do Estado da Paraíba (TCE-PB) e ao Ministério Público da Paraíba (MPPB), que devem analisar o caso e podem abrir mais uma investigação para apurar eventuais irregularidades e improbidade administrativa.
Documentos verificados no Portal da Transparência do Tribunal de Contas do Estado (SAGRES) apontam que viagens oficiais têm sido registradas com frequência incomum e com valores considerados altos para o porte do município. Em muitos casos, não há comprovação clara das agendas institucionais que justificariam essas despesas.
Apesar de ter à disposição carro oficial com combustível custeado pela Prefeitura, a prefeita de Duas Estradas, Myllena Nayara, registrou entre janeiro e agosto R$ 13 mil em diárias, além do salário mensal de R$ 16 mil — totalizando R$ 104 mil, apenas nos seis primeiros meses de 2025.

Entre janeiro e agosto, prefeita Myllena Nayara recebeu R$ 13 mil em diárias além do salário de R$ 16 mil mensais.

Os gastos não se limitam à gestora. Enquanto esteve na chefia de gabinete, a ex-prefeita Joyce Renally, com salário de R$ 5 mil, recebeu de janeiro a maio R$ 21.666,67, além de R$ 4.400,00 em diárias de janeiro a abril.


O Controlador-Geral do Município, Ramessés — esposo de Joyce, também com salário de R$ 5 mil, recebeu de janeiro a junho R$ 32.500,00 e, de janeiro a agosto, R$ 7.400,00 em diárias.


Outro nome da família no alto escalão é Ozineide Leandro Nunes, mãe da prefeita. Nomeada inicialmente como secretária executiva de Educação, ela foi elevada ao cargo de secretária da pasta para tentar afastar suspeitas de nepotismo, recebendo salário de R$ 5 mil. De janeiro a junho, Ozineide já recebeu R$ 28 mil em salários e R$ 3.600,00 em diárias, de janeiro a agosto.

em diárias, de janeiro a agosto.

Embora as diárias incluam despesas de hospedagem, a família da prefeita mantém residência própria em João Pessoa, com apartamentos na capital — o que levanta questionamentos sobre a real necessidade desses recursos públicos.

O volume de recursos pagos a gestores e familiares contrasta com a falta de benefícios básicos para a população.
“Pacientes que viajam para João Pessoa em busca de tratamento médico continuam sem uma casa de apoio custeada pela prefeitura — estrutura comum em cidades vizinhas para garantir acolhimento a quem precisa de atendimento hospitalar. Além disso, motoristas responsáveis pelo transporte desses pacientes não recebem diárias para cobrir despesas pessoais durante as viagens”. denunciou, o vereador.
O Parlamentar pede apuração rigorosa do Tribunal de Contas do Estado (TCE-PB) e do Ministério Público da Paraíba (MPPB).
“É preciso verificar se houve abuso ou desvio de finalidade nos pagamentos”, declarou o vereador.
Se for comprovada irregularidade, a gestora poderá ser obrigada a ressarcir valores ao erário e responder por improbidade administrativa.
Decisões e apurações em curso
Em outubro de 2024, ainda na gestão da ex-prefeita, Joyce Renally, a Justiça da 5ª Vara Mista de Guarabira atendeu pedido do MPPB, por meio de ação civil de improbidade administrativa, PROCESSO Nº 0808047-38.2024.8.15.0181 que determinou a exoneração de Ramesses Henrique Roberto de Figueiredo do cargo de procurador do município de Duas Estradas, apontando para a hipótese de nepotismo. A ordem fixou multa pessoal à prefeita em caso de descumprimento.
“Concluindo, dessa forma, que, anteriormente ao casamento, ocorrido em dezembro/2022, o casal já possuía união estável desde, pelo menos, o ano de 2017. De maneira que não restam dúvidas de que a nomeação, pela primeira ré, na qualidade de Prefeita do Município de Duas Estradas, do segundo réu para exercer o cargo comissionado de Procurador do Município, em 2018 e a partir de janeiro de 2021, se constitui em clara situação de nepotismo”. (Trecho da decisão)
Em julho de 2025, o MPPB instaurou procedimento para apurar suspeita de nepotismo também na atual gestão, da prefeita Myllena. O caso envolve nomeações de familiares, e a apuração foi formalizada pela Promotoria de Justiça de Guarabira. Trata-se de investigação.

Em decisão que consta em Portaria nº 182/2025, publicada em 30 de abril de 2025, a prefeita Myllena Nayara exonerou a ex-prefeita Joyce Renally do cargo de chefe de gabinete da Prefeitura de Duas Estradas. A exoneração ocorre em meio a uma denúncia também formalizada pelo vereador Heráclito, junto ao Ministério Público da Paraíba (MPPB), através da Promotoria de Justiça de Guarabira.
Na petição, protocolada no dia 27 de março de 2025, o parlamentar solicitou a saída imediata da ex-prefeita do cargo e a devolução dos salários recebidos entre janeiro e abril deste ano, além da aplicação de outras penalidades previstas em lei. Na época, o vereador argumentou que Joyce Renally está matriculada no curso de Medicina da Faculdade Afya Paraíba, em regime integral, o que, segundo ele, a impossibilitaria de cumprir a carga horária do cargo de chefe de gabinete. Para Heráclito Pinto, a dedicação exigida pelo curso seria incompatível com o exercício da função pública.
Desde então, a ex-prefeita deixou de ser vista em eventos públicos, e Ramessés passou a acompanhar a prefeita com mais frequência, inclusive em compromissos oficiais pelos quais também recebe diárias, aumentando os custos com deslocamento, hospedagem e alimentação.
Fontes locais afirmam que, com a exoneração da prima, a prefeita necessita da presença de Ramessés para participar de compromissos oficiais, fato que aumenta a suspeita sobre a sua capacidade de gerir o município de forma independente. Essa situação reforça a denúncia de que Myllena Nayara seria “laranja”, atuando sob influência direta da ex-prefeita e do seu esposo.
















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